segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Conversas d'Ouvido com Nada-Nada

Entrevista com Nada-Nada, projecto do músico Claudio Fernandes, que após passagens por bandas como PISTA, Cangarra ou DEBUT!, aventura-se a solo. Nada-Nada é pop, é rock, é indie, Nada-Nada é um pouco de tudo e um pouco de nada. Nada-Nada editou recentemente o single "Horário de Verão" que dará título ao disco de estreia com lançamento previsto para 2018. Enquanto esse dia não chega podemos ficar a conhecer melhor Nada-Nada nesta edição das "Conversas d'Ouvido"... 

Ouvido Alternativo: Como surgiu a paixão pela música?
Nada-Nada: Deixa-me colocar a questão doutra maneira: como é possível que não surja a paixão pela música?

Como surgiu o nome Nada-Nada?
Veio literalmente do nada (risos). Há um ano comecei a fazer algumas coisas no domínio da electrónica e pensei “bem, agora preciso de um nome”. As hipóteses seriam usar o nome próprio ou então criar algo. Normalmente esse “algo” vem de uma persona ou motivo criativo, certo? Neste caso, pensei que não havia realmente nada a alimentar o que faço, ou seja, faço porque faço, apenas porque sim. Então lembrei-me do seinfeldiano “show about nothing” e decidi que seria isso, fazer música acerca de nada. Mas a dobrar.

Após passagens por diversas bandas, como surgiu a vontade de te aventurares a solo?
Acho que sempre cá esteve. Ainda antes de saber tocar um instrumento, já fabricava ideias de canções, se bem que para bandas imaginárias. Com o passar do tempo, continuaram a surgir ideias, e no meio disso algumas que não se encaixavam propriamente naquilo que estava a fazer nas bandas em que tocava na altura. Há coisa de uns quatro anos pensei em metê-lo em prática, mas a forma como poderia fazê-lo ao vivo nunca me satisfez propriamente, não queria andar de guitarra e laptop com uma espécie de backing track. Entretanto, no ano passado comprei algum material e depois de muita crise existencial lá me decidi por fazer isto desta maneira. Para mim é uma grande vitória, se bem que sobre mim próprio.

Actualmente encontras-te a trabalhar no disco “Horário de Verão”, já podes levantar um pouco o véu sobre o que podemos esperar?
Podem esperar um disco sincero, basicamente. Algo com influências muito contraditórias, mas bonito quanto baste e feio também, quando necessário.

Como gostas de descrever o teu estilo musical?
Muito estilo. Ou melhor, uma salada de frutas.

Para além da música, tens mais alguma grande paixão?
O design, dinossauros, entre muitas outras coisas. Tudo o que me suscite curiosidade. Isso faz da curiosidade a minha outra grande paixão, suponho.

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico?
Depende muito da quantidade de coisas em que se esteja envolvido, mas de uma forma geral posso afirmar que a principal desvantagem é ser cansativo, por vezes. A maior vantagem é o prazer que advém desse cansaço quando o mesmo foi efeito secundário de escrever, tocar ou gravar música.

Quais as tuas maiores influências musicais?
Desde a puberdade que sou alto fã de Nirvana. Adoro outras mil coisas, mas esta é a banda que me preenche e que serve de influência primária para fazer o que faço. Depois há todo um conjunto de coisas que me influenciam a um nível quase do subconsciente e das quais nem sou necessariamente fã. Isto aplica-se a toda a música com a qual me cruzei. Espero que o "Despacito" não revele ser uma influência escondida nos confins do meu cérebro quando estiver a trabalhar numa canção qualquer daqui por 10 anos, mas a verdade é que pode acontecer. A "Macarena" parece-me incrível passados 20 anos, por exemplo, e na altura já ninguém podia com aquilo.

Como preferes ouvir música? Cd, vinil, k-7, streaming, leitor mp3?
Preferia ouvir tudo em vinil, claro, mas na realidade oiço música quase sempre no computador ou no telefone, seja streaming ou mp3. Eu sei, eu sei. Mas posso redimir-me com uma coisa: costumo ouvir discos completos!

Qual o disco da tua vida?
"In Utero", dos Nirvana. Para mim, é um disco perfeito.

Qual o último disco que te deixou maravilhado?
"Dada", dos B Boys. Moderadamente maravilhado, mas é um disco óptimo.

O que andas a ouvir de momento/Qual a tua mais recente descoberta musical?
Ultimamente tenho ouvido muita rádio, muita coisa de forma desordenada. Mas consigo apontar um re-edit da “In the Air Tonight” do Phil Collins que ouvi aí há umas semanas quando ia de carro para a margem sul, à noite. Não sei bem quanto tempo aquilo tinha (15min?), mas lembro-me de ir a ouvir aquilo completamente abismado com a intensidade da coisa. Lá está, prova que o azeite envelhece de forma gloriosa. (risos)

Qual a situação mais embaraçosa que já te aconteceu num concerto?
Não tenho assim muuuuitas, até porque acho que consigo transformar sempre isso em algo fixe. Sabes, rir da tua própria miséria antes que alguém o faça. Mas há uma situação, em que estava a tocar com a Nicotine’s Orchestra num dos palcos pequenos da Festa do Avante, e me esqueci de ir ao WC antes de começar, embora já tivesse alguma vontade de, bom, fazer aquele xixi. Pensei que conseguia aguentar na boa. E aguentava, mas o concerto estendeu-se demasiado e a certa altura passei o baixo a um amigo meu que estava a ver o concerto e, por acaso, já tinha tocado com eles, e corri para o WC mais próximo. Correu tudo bem, mas quando voltei já o concerto tinha terminado. Oops. (risos)

Com que músico/banda gostarias de efectuar um dueto/parceria?
Lena d’Água. Por mim, escrevia um disco inteiro só para ela.

Para quem gostarias de abrir um concerto?
Uma reunião de Genesis no estádio de Alvalade (risos).

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias um dia de actuar?
Por acaso não faço ideia. Tanto faz, desde que o ambiente seja mesmo fixe.

Qual o melhor concerto a que já assististe?
Também não faço ideia. Mas gostei muito de ver Preoccupations no Musicbox há uns meses. Na altura estava mesmo a sentir o último disco deles, e vê-los na altura certa foi um bónus. O problema com isto dos melhores concertos é esse: quase nunca consigo ver aquilo que me faz vibrar na altura certa. Por outro lado, tive muita pena de não conseguir ver Savages no último Alive. Vi o soundcheck e foi AVASSALADOR. Mas não conta como concerto, não é? Surma no Bons Sons também foi algo muito especial. Vi Tool em 2002 (lá está, bom timing) e lembro-me de ter adorado, assim como o primeiro de Black Lips por cá, no Barreiro Rocks, em 2005. Vi imensa coisa, mas acho que não tenho um favorito - é um torneio sem taça.

Que artista ou banda gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade?
Genesis. Ou Shellac, por parvoíce; falhei o concerto deles na ZdB e nunca consegui ir ao Primavera Sound.

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) em que gostarias de ter estado presente?
Queen, sábado, 12 de Julho de 1986, Estádio de Wembley. Provavelmente, o melhor concerto de sempre. Só não incluo o Live Aid porque é mais curto.

Tens algum guilty pleasure musical?
Oh, tantos. Nasci nos anos 80, qualquer coisa editada nessa altura pode ser considerado um guilty pleasure por muita gente.

Projectos para o futuro?
Continuar.

Que pergunta gostarias que te fizessem e nunca foi colocada? E qual a resposta.
Nunca ninguém me perguntou o meu prato favorito, por exemplo. Mas também não tem grande interesse. Uma boa pergunta seria: “qual a tua opinião em relação ao uso de mostarda e ketchup?”. A resposta seria “Epá, não, por favor, não”

Que música de outro artista, gostarias que tivesse sido composta por ti?
Bonnie Tyler - "Total Eclipse of the Heart". É lindo.

Que música gostarias que tocasse no teu funeral?
Boa questão. Algo que deixasse as pessoas meio desconfortáveis. Podia ser, por exemplo, o genérico do Seinfeld, a versão "extended" que passava sempre no final. A morte é uma boa punchline.

Obrigado pelo tempo despendido, boa sorte para o futuro.

Antes de terminarmos, ficamos ao som do mais recente single, que dará título ao futuro disco "Nada-Nada

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